8.11.09

AS FOGUEIRAS E AS BRUXAS

Lembram-se de algum dia terem visto em alguma aula de história alguma coisa sobre Inquisição? Mulheres sendo queimadas a rodo sob acusações de bruxaria por toda a Europa. Faz um tempão.

Bruxaria, vamos combinar, é uma acusação um tanto vaga. Como é que se prova que alguém é bruxa? Daí desdobrou-se que toda e qualquer mulher com qualquer atitude que fosse contra o que é esperado para uma mulher - pimba! - era bruxa. Sedutora = Bruxa. Feia = Bruxa. Inteligente = Bruxa. Independente = Bruxa. E por aí vai.

É muito comum acharmos que este tipo de mentalidade acabou há muito tempo - afinal, faz uma tempasso que a Inquisição oficialmente não existe. Mas quem acompanhou a história da estudante da Uniban que foi ameaçada de estupro em São Paulo, pode facilmente perceber que infelizmente esta mentalidade persiste.

Os desdobramentos do caso foram ainda mais chocantes. Com toda a mídia pela primeira vez na história adotando um ponto de vista sensato, de que os culpados da história eram 1) os estudantes que ameaçaram estuprá-la (ou alguém esqueceu que estupro é crime, punível com severidade no Brasil?) e 2) os outros estudantes que fizeram aquele fuzuê selvagem no melhor estilo Talibã. Mesmo assim, qual foi a atitude da Universidade Bandeirantes? PUNIR A GAROTA!

Alguém me explica: isso faz algum sentido? Em que sociedade isto faz algum sentido? Na que eu habito é que não é - prova disto é a mídia novamente descendo o pau na Uniban. E estão certíssimos. Que a Uniban sempre foi uma universidade incompetente e fábrica de diplomas, todos sabemos. Mas chegar a este ponto? Literalmente, a gota d'água.

Com muita razão Sônia, da SOF (Sempreviva Organização Feminista) que é uma organização hipercompetente e ativa no movimento de mulheres no Brasil, disse: "É preciso trabalhar prevenindo a violência. O contrário do que a universidade está fazendo. A aluna deveria ser acolhida, e os alunos, educados." [clique aqui para ler a reportagem completa]

Se vocês já assistiram Persépolis, sobre as mudanças na sociedade iraniana, contadas pela Marjane Satrapi, uma mulher fantástica e quadrinista, podem entender a que ponto atitudes como esta podem levar. A estudante da Uniban foi, literalmente, queimada. Numa fogueira ao estilo Inquisição.

Em que século queremos viver?

11.10.09

Estamos mais acostumadas ao bullying do que os homens?

Uma reportagem no jornal hoje me chamou a atenção, mas não imediatamente pela questão da desigualdade de gênero - o assunto era bullying no ambiente de trabalho. [leia a matéria aqui!]

Bullying é uma "pegação no pé" excessiva por parte de alguém, que inibe e desconforta outra pessoa. No bullying sempre há uma relação de poder entre o bully (que pratica o bullying) e o bullied (que sofre o bullying). Chama-se bullying tanto a violência física quanto psicológica. Bullying não tem hora ou lugar específicos pra acontecer - escolas, família, ambiente de trabalho... entre adultos, adolescentes, crianças... Acontece de muitas formas. Na escola por exemplo, sabe-se que é muito frequente o bullying de professores com alunos. [veja mais sobre bullying!]

A matéria estava interessante e, de repente, me deparo com um trecho que captou minha atenção:

"Nos homens que foram vítimas de bullying, os distúrbios do sono foram 220% maiores nos indivíduos que presenciaram tal atitude* e 240% naqueles que sofreram tais ataques. Entre as mulheres os números também são assustadores. Os aumentos de distúrbios foram da ordem de 170% nas que presenciaram * e quase 190% nas mulheres que sofreram bullying."

[*importante: fala-se aqui em números dos que "presenciaram" como vítimas pois muitas vítimas não assumem ou não reconhecem. Estes número normalmente incluem também os bullies, que praticam o bullying - o que também tem um efeito violento sobre a pessoa]

Quer dizer: quando os homens sofrem bullying, os distúrbios no sono (que podem servir como um medidor do impacto psicológico da ação do bullying sobre o indivíduo) aumentam 240%. Quando são as mulheres, aumentam somente 190% - um número deveras alto mas ainda assim 50 pontos percentuais a menos em relação aos homens.

E veio a pergunta:

Por quê, aparentemente, os homens se incomodam mais com o bullying do que as mulheres?

E em seguida uma possível resposta:

Historicamente, fomos submetidas a diversos tipos de bullying - violências físicas e psicológicas: dentro de casa, no trabalho, na televisão, nos jornais, nas nossas profissões, nos relacionamentos, na própria exclusão das mulheres de várias esferas sociais e direitos (que, sim, acontece até hoje em muuuuitos lugares). É quase como se estivéssemos calejadas, mas não tanto a ponto de que isso não tenha impacto psicológico, claro. É uma ultraviolência de qualquer forma. Fomos histricamente submetidas a um lugar social de humilhação, de inferioridade em muitos aspectos.

Já os homens, ao contrário, foram historicamente colocados numa posição de superioridade, de liderança, de excelência - e estes parâmetros inclusive mantém uma relação muito estreita com o próprio desenho do gênero masculino, com a masculinidade. O que significa "ser homem", ou ainda "macho" como dirão os mais trogloditas? É isso: superioridade, liderança, excelência, poder. E quando se sofre bullying, perde-se de uma vez só todas estas características. Fica-se vulnerável, inferior, humilhado, características essas consideradas, pasmem, por muito tempo como "femininas".

No fim das contas, para alguém que tem uma mínima noção das história dos gêneros e das relações de gênero na nossa querida sociedade ocidental capitalista, os resultados da pesquisa são totalmente previsíveis e explicáveis. Mas deixo ainda uma última pergunta para reflexão:

Por que não se faz uma pesquisa sobre o aumento nos distúrbios do sono em casais envolvidos com violência doméstica? Por que ESSE tipo de violência não é considerado um bullying, quiçá dos mais violentos?

24.9.09

Mais vale um adolescente que digita SMS do que...

Gente, o mundo realmente precisa de mudança tipo URGENTE.
E não é só pelo frio absurdo em Setembro e pelas questões climáticas não...

Essa semana um estudante do Rio ganhou nada mais nada menos do que R$10 MIL por...
a) colaborar com sua comunidade em um projeto inovador
b) criar uma bela obra de arte
c) fazer um trabalho acadêmico que revolucionará a ciência
d) digitar SMS muito rápido.

[ver Folha - Informática para mais detalhes]

Justamente. A habilidade de digitar SMS rápido hoje, no Brasil, vale R$10 MIL.
A habilidade de colaborar com sua comunidade e mudar o mundo para melhor,
ou a habilidade de criar arte de qualidade,
ou a habilidade de contribuir intelectualmente para um futuro melhor...

Nada disso vale R$10 MIL a julgar pela quantidade e qualidade de bolsas, prêmios, editais, financiamentos, etc. que são destinados ao estímulo a estes outros tipo de habilidade, a meu ver "levemente" mais significantes pra humanidade do que digitar SMS.
 
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